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Homens não choram ‘via lágrimas’
Publicado no Jornal da Cidade de Bauru
22/10/2006 

 
Independente dos motivos, chorar é mais comum entre as mulheres, aponta Maria Ivone Marchi Costa, psicóloga clínica e professora da Universidade do Sagrado Coração (USC). Isto se deve a questões educacionais, explica. “Na cultura brasileira, homem que chora é, muitas vezes, sinônimo de homem frágil”, diz.
 
A autora do livro “Dirija sua vida sem medo”, a psicóloga clínica Olga Tessari, concorda com Maria Ivone. “Às mulheres é permitido expressar sentimentos, falar o que está sentido, chorar e gritar. Já o homem, devido à questão machista, tem que se manter sereno, calmo e aparentar não ter sofrimento nenhum. Tem que ser forte e não pode externar os sentimentos”, detalha.
 
Esta diferença em relação à expressão das emoções começa, muitas vezes, na educação entre meninos e meninas. Segundo Olga, desde pequenos, os garotos foram ensinados a serem valentes e resolverem tudo. “Quando o filho está chorando, por exemplo, o pai diz para ele parar porque menino não chora. Então ele vai aprendendo a conter seus sentimentos.”
 
De acordo com Olga, os homens se emocionam tanto quanto as mulheres, mas demonstram seus sentimentos de forma diferente. Robson Luiz Pelegrini, 42 anos, e Antônio Umbelino da Silva, 60 anos, ambos comerciantes, dizem que chorar faz bem porque ajuda a aliviar tensões e expressar os sentimentos.
 
Apesar disto, revelam que derramar lágrimas não é um comportamento freqüente para eles. “Por meio do choro, se desabafa muita coisa, mas não faço isto com facilidade”, diz Antônio. “Para mim, é muito difícil chorar”, conta Robson.
 
Há casos ainda em que os homens fazem uso da agressividade para extravasar de forma positiva ou negativa suas emoções, aponta Olga. “Jogando bola ou praticando outros esportes, quando também brigando ou xingando no trânsito, eles liberam um pouco a tensão, diferente da mulher, que pode expressar seus sentimentos chorando, por exemplo.”
 
Maria Ivone cita outras vias de expressão mais comuns entre os homens. “Eles passam a trabalhar em excesso, podem se deprimir, fazer uso de drogas, ficar nervoso ou rezar muito, cada um escolhe um caminho.”
 
Outra forma de expressão dos sentimentos é a somatização ou o “choro pelo corpo”, mais freqüente no caso deles, destaca Maria Ivone. São as defesas cronificadas, explica. “Como reprimem muito as emoções, se os homens têm predisposição, podem ter problemas de pele, complicações gástricas, enxaquecas ou até mesmo doenças mais graves”, aponta.
 
O “choro saudável” representa a expressão da emoção de forma genuína e verdadeira. Ele pode se tornar negativo quando as lágrimas paralisam ou bloqueiam os sentimentos ou servem de chantagem emocional, reforça Maria Ivone.
 
Segundo ela, tanto para homens quanto para mulheres, a forma mais adequada para expressar emoções é a comunicação verbal, independente da situação. Seja na escola ou no trabalho, explica, é importante observar se o choro não está servindo como ‘”muleta’”. “Há dias nos quais a pessoa chora porque está mais sensível ou não está bem, mas não é adequado se isto se tornar padrão de comportamento.”

Chorar faz bem?
Derramar lágrimas faz parte do cotidiano de diversas pessoas, especialmente das mulheres, e ajuda a esvaziar emoções
Forma de desabafo e alívio para uns ou sinal de fraqueza para outros, chorar é uma das principais manifestações do ser humano. Desde o nascimento, o choro serve como via de comunicação necessária entre bebês e seus pais, uma vez que as crianças, por falta do recurso da fala, derramam lágrimas para expressar dor, fome ou outros sentimentos.
 
Mas qual é a função do choro na fase adulta? Chorar faz bem?
 
Quando as lágrimas resultam de uma emoção natural e verdadeira, sim, responde Maria Ivone Marchi Costa, psicóloga clínica e professora da Universidade do Sagrado Coração (USC). De acordo com ela, chorar ajuda a esvaziar as emoções, mas desde que as lágrimas sejam fruto de uma emoção genuína, tanto em momentos alegres quanto tristes. “É o chorar de verdade, quando a pessoa realmente se mobiliza com determinada situação e sente vontade de chorar”, explica.
 
Esta experiência é constante no cotidiano da vendedora Kátia Pereira Catalano, 27 anos. Ela diz que chorar faz bem. “Por meio do choro, coloco para fora emoções e muitas coisas que ficam guardadas”, afirma.
 
Declarando-se “chorona”, Kátia conta que muitas vezes não consegue segurar as lágrimas quando assiste a uma novela ou filme. Se comove também quando vê um fato triste. A última vez que chorou foi quando soube do acidente envolvendo a queda do avião da Gol no Mato Grosso (MT), causando a morte de mais de 100 pessoas. “Choro em todas as situações que me tocam”, diz.
 
A administradora Lia Furquim de Campos, 25 anos, também chora facilmente, especialmente quando assiste a vídeos ou vai ao cinema. “Chorei com o filme ‘Antes que Termine o Dia’. Sou muito emotiva”, conta.
 
O mesmo ocorre com a doméstica Sônia Cortez dos Santos, que derrama lágrimas quando tem uma emoção intensa. “Choro com facilidade, em filmes, novelas e também em situações muito angustiantes, para desabafar”, diz.
 
De acordo com Olga Tessari, psicóloga clínica e autora do livro “Dirija sua vida sem medo”, o choro produz uma substância no organismo que provoca uma sensação de alívio e bem-estar. Por outro lado, chorar não faz bem quando funciona como “tapa-buraco”.
 
Segundo Maria Ivone Marchi Costa, em certos casos, o choro pode representar uma defesa contra uma emoção maior. “É uma forma de bloqueio da raiva, por exemplo. De repente a pessoa não quer manifestá-la e chora para não expressar este sentimento”, explica.
Nesse contexto, a psicóloga também ressalta o poder “paralisador” do choro, que dificulta a reação e comunicação. “Enquanto chora, o indivíduo não age. Ao invés de se posicionar e expressar o que está sentindo em determinadas situações, ele fica paralisado e chora.”
As lágrimas também são usadas como arma de sedução por algumas pessoas, avalia Maria Ivone, e neste sentido não é fator positivo para os relacionamentos. “É o caso de uma pessoa que usa o choro para comover o outro porque agindo desta forma recebe mais atenção”, exemplifica.
 
Essa atitude é típica na infância, observa a psicóloga. “A criança pode usar o choro como instrumento de chantagem porque, muitas vezes, percebe que falando ela não consegue o que deseja, mas chorando mobiliza os adultos e consegue o que quer. Assim, isto se torna um padrão no seu relacionamento com outras pessoas”, diz.
 
O problema se agrava quando este comportamento permanece na fase adulta. Maria Ivone explica que em muitos casos, por conta da própria dificuldade em se comunicar ou devido às barreiras impostas pelo outro, o adulto usa o choro para comover. “Dependendo do tipo de pessoa que ele se relaciona, o indivíduo não consegue comunicar-se de maneira diferente e sabe que chorando pode sensibilizá-lo.”
Isto pode ocorrer em qualquer relacionamento, seja de pais e filhos, entre namorados, amigos ou na relação com o chefe. Mas a chantagem por meio das lágrimas só ocorre, no entanto, quando a pessoa encontra ressonância e complementaridade, ressalta Maria Ivone. Quando o outro não cede ao contato via choro, destaca ela, a tendência é de que, com aquele indivíduo, ela passe a utilizar outras formas de comunicação.
 
A estudante Aline de Lima Gaspar, 19 anos, considera injusto usar o choro como forma de chantagem. Apesar de ser muito emotiva, conta ela, tenta se controlar durante eventuais brigas e discussões pessoais. “Já chorei quando eu e minha mãe brigamos e também por causa de um ex- namorado, mas não faço isto na frente deles. Deixo para chorar depois e assim expressar minhas emoções.” 

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Autora do livro "Dirija a sua vida sem medo" 
Escritora - Palestrante - Pesquisadora - Consultora

Psicóloga e Psicoterapeuta desde 1984 (CRP06/19571) atuando nas áreas de ansiedade, auto estima, medos, timidez, pânico, stress, depressão, orientação de pais, problemas específicos da criança, do adolescente, da mulher, do homem, da terceira idade, dificuldades e problemas nos relacionamentos em geral (do casal, de pais com filhos, entre amigos, parentes, vizinhos, colegas de trabalho, etc...)  distúrbios da alimentação (compulsão, obesidade, anorexia, bulimia).
Atendimento e aconselhamento de adolescentes, adultos, pais, casais, grupos e famílias.
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Dra Olga Inês Tessari
Psicóloga e Psicoterapeuta desde 1984
Pesquisas - Consultoria - Supervisão Clínica
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